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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Portugal: País com uma história cristã muito antiga

 

 
 

               

Entrevista ao hieromonge Abade Arsenij Sokolov conduzida por Mikhail Kiselev, em 16 de Outubro de 2009
 
 
 
Conversa com o hieromonge Abade Arsenij Sokolov (sacerdote responsável da paróquia de Vsekhsviatsky, do Patriarcado de Moscovo, em Lisboa, que presta assistência religiosa e espiritual à comunidade russa da capital portuguesa).
 
O Pe. Arsenij Sokolov nasceu, em 1968, na cidade Sharia (região de Kostroma). Desde 1976, viveu e estudou em Lesosibirsk, no território de Krasnoyarsk. Após o serviço militar, trabalhou como ajustador mecânico ferroviário e nas caldeiras de água quente, e estudou no Departamento de História da Universidade de Tomsk.
 
Em 1992, foi tonsurado monge e ordenado hierodiácono, na Catedral de Assunção, pelo arcebispo de Krasnoyarsk, Anthony Yenisei. Nos anos de 1994-1997, fez serviço de transporte missionário, em estabelecimentos penais do território de Krasnoyarsk. Em 1997, foi ordenado presbítero e nomeado presidente do Departamento Diocesano da Diocese de Krasnoyarsk, em interacção com as instituições penais do território de Krasnoyarsk.
 
Em 1998, recebeu graduação na Academia de Teologia de Moscovo, tendo passado para a escola de pós-graduação da mesma Academia, onde, em 2003, em prova de acesso à docência de Escrituras Sagradas do Antigo Testamento, defendeu a tese O Livro de Josué: A experiência dos estudos históricos e exegéticos.
 
Nos anos de 1999-2000, sob instruções do presidente do Departamento de Relações Externas da Igreja Metropolita, Kirill de Smolensk e Kalininegrado (actual Patriarca de Moscovo e de Toda a Rússia), frequentou o Instituto Bíblico Pontifício, em Roma.
 
Nos anos de 2001-2003, foi reitor da paróquia da Natividade de Cristo, do Patriarcado de Moscovo, em Madrid (Espanha). E, desde 2003, é o reitor de Vsekhsviatsky, também do Patriarcado de Moscovo, em Lisboa. Na Páscoa de 2009, recebeu o título de Abade. Actualmente, trabalha num comentário sobre o livro do profeta Amos.
 
Tem domínio perfeito (escrito e falado) das línguas: Espanhol, Italiano e Português.
 
 
– Padre Arsenij, há quanto tempo está em Portugal?
– Exactamente seis anos. Antes disso, tinha vindo a Portugal, apenas de visita, a Lisboa e ao Porto, onde desde a Primavera de 2002, a nossa comunidade tentava instalar-se.
 
– Que conhecimentos tem deste País, o mais ocidental da Europa? Como analisa a mentalidade e as tradições dos seus habitantes?
– Os Portugueses são muito amigáveis. É fácil comunicar com o povo e não são absolutamente nada xenófobos. Aqui, os estrangeiros sentem-se muito confortá­veis. Talvez porque eles mesmos já experimentaram a amargura de emigração. Dizem que, na década de 70 do século passado, em Paris, viviam mais portugueses do que em Lisboa. Ainda agora, um terço dos Portugueses vive longe da sua terra natal – em França, na Alemanha, no Luxemburgo, nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil, na Venezuela, na Austrália, na África do Sul.
Quanto ao seu perfil emocional, acho que a geografia do País lhe imprimiu uma marca muito forte. A norte e leste, fazem fronteira com a Espanha, com quem, ao longo da história, nem sempre mantiveram uma convivência harmoniosa; e a oeste e sul, a fronteira é com o amplo e infindo Atlântico.
A calma e melancolia dos Portugueses é completamente diferente da emotividade dos seus vizinhos espanhóis.
Parece que o Oceano, que lhe banha o território, que é tão excitante e ao mesmo tempo intemporal, os tranquiliza. O que melhor caracterizada a sua mentalidade é uma palavra difícil traduzir – “saudade” (a saudade é um misto de nostalgia, de dor e de solidão existencial).
O Oceano, sob o ponto de vista medieval, não é o mar. Os habitantes da Costa do Levante e da Andaluzia sempre souberam que o outro lado do mar não está muito longe. Todos os dias saíam para a costa oposta – para a Itália, para Norte de África e para o Médio Oriente – navios, que em breve, regressavam carregados de produ­tos ou despojos de guerra. Os marinheiros conheciam o mar Mediterrâneo como os dedos da mão, o mar era como a sua casa natal, onde tudo era familiar e habitual.
Oceano é algo completamente diferente. Não pode ser medido, não tem margem oposta. Quem se atreve a ir onde o sol mergulha no abismo? O mar pode ser o seu aliado e ajudante, mas o oceano, não. Ficam contentes com o que as ondas trazem para a costa, apanham os peixes mesmo à beira, mas não se atrevem a perder a terra de vista, não se brinca com o Oceano porque indo longe para oeste, nunca mais se volta. Esta saudade reflecte-se no estilo de música do Fado português (o termo vem do latim fatum – palavra, que não precisa de tradução). O Fado é uma música triste e espasmódica, chora aqueles que para sempre desapareceram no horizonte, que nunca regressaram às praias nativas.
No entanto, no século XV, a distância sedutora atraiu os Portugueses e os seus veleiros desapareceram no largo horizonte, abandonaram-se às ondas do Oceano, na esperança: talvez ainda tenham a vantagem, neste abismo universal! Até então desabitados surgiram os arquipélagos dos Açores, Madeira, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, que, com muita coragem e ousadia começaram ser habitados. A Índia e a China não estão hoje tão distantes como sempre estiveram, porque para isso bastou Vasco de Gama circum-navegar o Cabo da Boa Esperança. Ainda mais perto do que a Índia ficou o Brasil. As cartas geográficas encheram-se com os nomes dos bravos marinheiros portugueses: Magalhães (Estreito de Magalhães) e Torres (Estreito de Torres). Mas ficou para sempre a saudade, característica mais profunda da emotividade portuguesa. Este é o contexto em que são sobrepostas todas as outras emoções. Ainda hoje a diversão favorita dos lisboetas, no Inverno, é ir de carro até à falésia e, durante muitas horas, contemplar o mar.
 
– Conte-nos como é a vida da comunidade da Igreja Russa em Portugal, qual é o seu tamanho e composição?
– Em finais de 1999, começou o afluxo de imigrantes da Europa Oriental para Portugal. O pico dos fluxos de imigração de países do Leste Europeu teve lugar nos primeiros anos do novo século, quando Portugal sofreu um pequeno choque, de surpresa, com a "invasão de estrangeiros". Restabelecendo-se da surpresa, os serviços sociais do País têm feito todo o possível para ajudar os imigrantes – desde cursos de Língua Portuguesa gratuitos até aos centros de serviços jurídicos gratuitos.
No tumultuoso primeiro ano do novo século, foram constituídas, em Portugal, as nossas comunidades de Lisboa, do Porto, de Faro e de Setúbal. Todas elas são multinacionais – russos, bielorrussos, ucranianos, moldavos, georgianos e portugueses – e rezam juntos, o que é relevante. Habitar em terra estrangeira por si só já ajuda a unir as pessoas. Mas não há nada como a Fé e a Igreja para fomentar a união.
Muitos dos nossos emigrantes que aqui estão, longe de casa e da vida familiar próxima, atravessaram, aqui, pela primeira vez, a soleira da igreja. O primeiro impulso para ir à igreja pode não ter sido o da fé, mas, por exemplo, a necessidade de comunicar com os seus compatriotas, o desejo de encontrar o lado social e apoio moral.
Nesta fase, é necessário ajudar as pessoas, que, muitas vezes, estão num dilema, principalmente financeiro. Ali, fornecemos alimentos, abrigo e vestuário, ajudamos a dominar a língua e a encontrar trabalho. A vida da Comunidade Ortodoxa, no Ocidente, no quadro europeu moderno, é inseparável do serviço social. Tal atitude geralmente dispõe a pessoa que tem necessidade, tornando-o capaz de falar sobre um tema espiritual.
Na Paróquia de Lisboa, num domingo normal, estão presentes de 100 a 150 comungantes, um pouco menos do que noutras Paróquias. Penso que esta é a verdadeira força das comunidades. Ao serviço da Páscoa chegam a comparecer alguns milhares das pessoas, mas a maioria deles, ainda, infelizmente, não são comungantes.
 
– Em Lisboa, é responsável pela a Paróquia de Todos os Santos. Quais são os aspectos positivos e quais são os problemas de alimentação dos nossos conterrâneos?
– Penso que a vida paroquial em Portugal tem a mesma especificidade de todas as congregações recém-formadas, na Europa. Primeiro que tudo, a mobilidade, a fluidez e durabilidade da comunidade. De facto, muitos vêm aqui só por algum tempo, para trabalhar e para melhorar a sua situação económica e depois voltar para casa. Não há muitos que vejam o seu futuro em Portugal. Uns saem, outros chegam. Portanto, a construção da comunidade e do trabalho pastoral estão condenados à incompletude crónica. Mas, nesta situação, há uma enorme vantagem! Este estado de coisas salvaguarda contra a estagnação, a rotina diária monótona. Vêm muitas pessoas novas e entram na vida paroquial, todas com os seus talentos e habilidades. Ao partir, deixam a vida da igreja mais dinâmica e espiritualmente enriquecida.
Realmente, em Portugal, somos pobres, no plano económico, não temos edifícios próprios. Usamos as instalações cedidas, gratuitamente, pela hierarquia católica e pelos municípios. Em Lisboa, por exemplo, já há quatro anos que celebramos missa numa pequena Igreja no centro da cidade.
Esse direito foi-nos concedido pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, em resposta ao pedido da Embaixada da Rússia. Após os acontecimentos revolucionários de 1974, esta igreja foi, como muitas outras igrejas católicas, fechada. Por esforço próprio fizemos algumas obras e conseguimos instalar um altar móvel e, agora, já ali podemos celebrar missa. Antes, celebrámos em vários locais: num convento de mulheres, que é da Embaixada da Bulgária, numa capela de um supermercado, ou, às vezes, em apartamentos.
A disponibilidade de instalações, embora formalmente sendo de outros, oferece-nos grandes oportunidades. As Missas tornaram-se mais frequentes. Conseguimos abrir um jardim infantil, um círculo bíblico para os adultos, cursos de Português, colocá­mos armários e começámos a recolher livros para a biblioteca paroquial, e fazemos ensaios. Em Portugal, nas outras paróquias, a situação é semelhante.
Mas o trabalho do Pastor não se limita só ao acolhimento. Felizmente, nós, os sacerdotes em Portugal, temos uma excelente oportunidade para visitar os presos, para visitar a família ortodoxa, que vive a centenas de quilómetros das paróquias e até em ilhas remotas, estamos comprometidos com a caridade, e também patrocinamos encontros de estudantes…
Hoje, temos desafios muito diferentes, e já não são os que tínhamos há oito anos atrás, quando começámos na Península Ibérica, que, por todo o lado, celebrávamos Missa sozinhos – em Madrid, Barcelona, Málaga, Lisboa, Setúbal, Porto… Agora, só em Portugal, temos quatro sacerdotes. Por isso é tudo muito mais fácil.
Hoje, a principal dificuldade é a preservação da identidade ortodoxa daqueles que decidiram ficar aqui para sempre, cujos filhos já são cidadãos portugueses. Como ajudar os nossos paroquianos a integrarem-se na sociedade portuguesa, mas protegê-los, de forma a não se dissolverem nela? O que fazer para que a acultura­ção não determine a sua assimilação? Essas questões surgem e aplicam-se hoje. Hoje, e não amanhã, precisamos de procurar respostas para elas.
 
– O que acontece na vida litúrgica da Paróquia?
– A vida da Paróquia de Lisboa, tal como em todas as nossas Paróquias, nos Pirenéus, começou recentemente e "a partir do zero". Então, penso eu, é mais fácil construir a vida da igreja em base canónica, evitando as distorções que as pessoas às vezes conhecem no país de origem (tráfico no templo, autoritarismo do abade e outros).
A Liturgia é o coração da vida da Igreja. Hoje, temos todas as oportunidades para realizar as orações em conformidade com a tradição ortodoxa, evitando distorções dessa tradição, que tiveram lugar no Sínodo e na época da União Soviética. O Baptismo faz-se com uma grande preparação catequética e imersão total. A liturgia do Casamento e do Baptismo envolve toda a Paróquia, porque o sacramento da Igreja não é um "assunto privado", mas uma festa para toda a comunidade. A escritura é lida, não só na língua eclesiástica, mas também em russo e português. A Prédica sobre a Liturgia, após a leitura do Evangelho. O Cânon Eucarístico pronunciado em voz alta, de forma a todas as pessoas ouvirem, e todo o povo diz "Ámen", como exige o rito. Após cada Divina Liturgia (esta é uma característica de todas as Paróquias no estrangeiro), há o chá gratuito para todos. Isto também ajuda a construir e a fortalecer a comunidade, criando uma comunidade paroquiana unida.
 
– Em Junho deste ano, participou na mesa-redonda "A Igreja Ortodoxa Russa e compatriotas na Europa: experiências e perspectivas de coopera­ção». Na sua opinião, como é que tais fóruns podem ajudar o Clero da nossa Igreja, que celebra Missa em países longínquos?
– Notável iniciativa. Encontrámo-nos nesse formato, conhecemo-nos, conversámos, discutimos sobre problemas comuns. Isto em si é valioso, especialmente para os recém-chegados. Antes de tudo, precisamos de aprender muito com as paróquias, em países como, por exemplo, a França e a Alemanha, onde várias gerações de cristãos ortodoxos acumularam uma rica experiência de vida da Igreja e a constru­ção da comunidade.
 
– Como responsável pela Paróquia do Patriarcado de Moscovo, num país católico, como é o relacionamento com o clero e os crentes locais?
– Portugal é um País com uma história cristã muito antiga. O Cristianismo chegou aqui na época apostólica. Nessa altura, a Igreja de Cartagena enviava para aqui mis­sionários e educadores. Até ao final do século II e início do século III, na cidade de Bracara (actual Braga) existia uma Cátedra Episcopal. Isso deve-se ter sempre presente.
O Cardeal-Patriarca de Lisboa e os outros bispos de Portugal, creio eu, é sincero na resposta às necessidades das nossas comunidades de imigrantes. Não só em Lisboa, como disse, mas em Faro, em Setúbal, na Madeira e na cidade de Elvas, as dioceses católicas locais disponibilizaram, prontamente, instalações para a celebração da Missa, ou temporária ou permanentemente, mas sempre de forma gratuita. O mesmo pode ser dito sobre as autoridades locais. Assim, mais recentemente, o Município de Porto concedeu-nos o direito de utilizar instalações suas, na cidade, para celebrarmos Missa. As organizações católicas e instituições de caridade ajudam os nossos imigrantes a encontrar trabalho e escolas onde podem estudar a Língua Portuguesa. Estamos muito gratos por essa ajuda fraterna.
 
– Na sua prática sacerdotal, houve casos em que portugueses aceitassem a Ortodoxia?
– Sim, vários portugueses aceitaram a Ortodoxia, na nossa comunidade de Lisboa. Geralmente, são adultos que estão a viver situações de casamento misto, onde uma parte já é ortodoxa. Mas há outros casos. Há o caso da conversão de um jovem cujos pais o educaram nas crenças ateístas. E, recentemente, aceitaram a Ortodoxia dois estudantes da Universidade local, um brasileiro e um português.
Mas, na Paróquia de Lisboa, há um cidadão português, que aceitou a Ortodoxia, há mais de meio século, o monge Filipe (Ribeiro). Na juventude, a busca espiritual levou o Luís (o seu nome secular) para França, onde se encontrou com a Tradição Ortodoxa e adoptou a Ortodoxia. Cinco anos atrás, o nosso bispo Dom Inocêncio de Korsun, tomou a decisão de aceitar os votos de Luís Ribeiro, que, como monge, adoptou o nome de Felipe, em honra do Apóstolo São Filipe. E, dois anos atrás, o Senhor incumbiu-me para fazer tonsura ao monge Filipe. Ele está na década dos noventa, mas ainda se mostra forte, tentando não perder a adoração. Frequente­men­te, ajuda-nos a todos, com os seus inestimáveis e sábios conselhos.
publicado por Re-ligare às 16:11
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