Local da área de Ciência das Religiões da Un. LUsófona onde procuramos rechear de conteúdo o conceito de Boas Práticas, quando aplicado ao universo religioso.

.posts recentes

. O Medo do Outro (notas d...

. Reino Unido reconhece ofi...

. Cooperação entre a Igreja...

. Em Londres, Bento XVI com...

. Em Ankawa, os cristãos ca...

. Que fazer com um sêlo?

. Austrália: Jesuítas vão i...

. Padre católico indonésio ...

. Primeiro lugar multi-reli...

. Capela partilhada por vár...

.arquivos

. Dezembro 2013

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Evangelizar ou... destruir papel?

Há uns dias, assisti a uma situação verdadeiramente risível. Uma situação para a qual, mesmo os não religiosos, olhariam com um semblante de desagrado, estranhando que um dos livros mais importantes da História da Humanidade fosse usado como falha bola de futebol.

Era um dia de semana, estavamos pela hora de almoço, o recreio maior das nossas escolas. Tudo se passou junto à Biblioteca Naciona onde, perto do muro que dá para o Campo Grande, um grupo de jovens fazia um misto de basquete e de futebol com uma pequenita "bíblia", um Novo Testamento acompanhado pelos Salmos e ainda pelos Provérbios.

                         

           

Fiquei incomodado. Reconheci o volume pequenito, habituado que estou a manusear bíblias. Tenho em casa um volume igual ao que vi ser usado como bola. 

Tenho umas dezenas de Bíblias, das mais variadas tradições, nas mais variadas línguas, com as mais variadas capas e aspectos gráficos. Mas este azul é o da única capa, acho eu, que indica claramente que "este livro não será vendido".

Mas, por não poder ser vendido, isso não quer dizer que possa ser dado à razão que razão não tem, talvez numa interpretação quase taumaturgíca que levaria o simples contacto tactil com o Livro Sagrado a uma conversão mais mítica que mística...

Enfim, não entrarei pelo campo da aproximação pseudo-teológica, não estou capacitado para tal nem é este o local e o momento para o fazer. A minha questão era simples: porque levar à situação degradande que eu assistira? De quem era a responsabilidade?

Cheguei a casa e indaguei o meu filho que, por acaso, é aluno na escola mais próxima do local onde eu assistira a essa cena.

O que me foi explicado foi o seguinte: à hora de almoço, duas pessoas, já com certa idade, colocaram-se junto à porta da escola e deram estes livritos a todos os que passavam, apenas acompanhando a oferta pela frase "este livro é importante". Simples, simplista, sem mais conteúdo... o resultado? Comecei a minha descrição por ele.

Terão sido talvez dezenas os livros que foram parar ao mais próximo caixote do lixo - em época de reflexão ambiental, só isto já é um crime. Terão sido muitas as que, num momento de diversão, tiveram a inesperada utilidade de bola. Terão sido, também, muitas as que nem sequer foram olhadas por quem as recebeu, tal como fazemos aos folhetos dos medium, astrólogos e outros Mestres de duvidosa capacidade que recebemos nas entradas do Metro.

Ironias da vida, alguns miúdos arrestaram um número maior de bíblias e foram vender cada exemplar a 1 Euro... houve quem, passando na rua, comprasse. A Bíblia que não podia ser vendida assumia, de facto, esse pretérito no verbo perante a venda realizada pelos adolescentes.

E assim foi mais uma sessão de evangelização que, não duvido, mais tarde ou mais cedo surgirá num índice de alguma entidade religiosa como um sucesso! Foram distribuídas mais "X" Bíblias.... e para quê? Para muitos terem o desprazer de ver esse livro ser tratado da pior forma possível.

A responsabilidade? apenas a de quem não sabe o mundo em que vive, que julga estar acima dele e, não imaginemos outra coisa, até pensa ter feito uma boa acção.

Daqui a uns anos, quando mais maduros, muitos jovens terão a memória agreste de que lhes possibilitaram fazer aquela figura... a responsabilidade não é dos jovens, é de quem julga poder e dever evangelizar desta forma.

                

Mas a questão toma ainda foros mais complexos: por exemplo, qual a legalidade de tal acto? Poderão usar o espaço público, contíguo a uma escola, para distribuir textos religiosos a menores de idade? Que eu saiba, os pais das crianças em nada foram ouvidos.

                        

Mas pior: o que terão achado disto tudo os pais totalmente a-religiosos (para não dizer anti-religiosso) quando, à noite, os filhos lhes disseram ter recebido uma Bíblia à porta da escola? POde parecer que é tudo uma simples questão de LIberdade. E é, claro. Mas é também uma questão que deveria ser pensada no campo do bom-senso, dos proveitos e de tudo o que lhe é oposto.

Com este gesto claramente impensado, fruto de uma vontade legítima mas nada maturada, muitas crianças podem ter ouvido "sermões" da mais profunda doutrina anti religiosa, anti cristã e, logicamente, anti-os-que-andam-para-aí-a-distribuir-essas-coisas.

              

Passados dois dias, no café junto à escola, no meio das latas de bebidas num dos expositores, estava uma destas Bíblias. Perguntei a uma das funcionárias o que era. Explicou-me a mesma situação que já antes o meu filho me relatara.

Ao explicar a situação, a distribuição das Bíblias, crescentou, significativamente, o que é a justificação desta minha reflexão: "não deviam ser católicos".

É assim que nasce o preconceito. Quantas vezes, na ansia cega de tudo abarcar, tudo se deita fora.

               

Quantas pessoas ficaram com a ideia do que aquele linear pensamento queria dizer?

                

Muitas, de certeza.

             

Diria eu que, até para evengelizar, há que saber que chão se pisa. Senão, é pior a emenda que o soneto, como vulgarmente se diz.

          

Paulo Mendes Pinto

 

publicado por Re-ligare às 11:02
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds