Local da área de Ciência das Religiões da Un. LUsófona onde procuramos rechear de conteúdo o conceito de Boas Práticas, quando aplicado ao universo religioso.

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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2013

O Medo do Outro (notas de leitura)

Tzvetan Todorov, La peur des barbares. Au-delà du choc des civilisations, Paris, Robert Laffont, 2008, 312 páginas (346 páginas na edição “Le Livre de Poche”, que usamos); trad. port.: O Medo dos Bárbaros. Para além do choque das civilizações, Rio de Janeiro, Vozes, 2010.

Este extraordinário livro de T. Todorov deixa-se perfeitamente dividir em duas partes: a primeira (de que fariam parte os dois primeiros capítulos), mais “teórica”, em que o autor define vários conceitos, tais como “bárbaro”, “civilização”, “cultura(s)”, “identidade coletiva”; a segunda (desenvolvida em três capítulos), como uma aguda reflexão sobre a atualidade, em que desmonta a teoria do “choque de civilizações” de Huntington, estuda três eventos que marcaram o mundo (o assassinato de Théo Van Gogh, a crise das caricaturas dinamarquesas sobre Maomé e o discurso de Bento XVI em Ratisbona) e aborda a questão da “identidade europeia”.
No fundo, o livro é de novo uma reflexão sobre a questão do Outro. “De novo” porque, em 1982, o autor já o tinha feito, situando-se precisamente nos inícios da modernidade: a descoberta do “novo mundo” (T. Todorov, La conquête de l’Amérique. La question de l’autre, Paris, Seuil, 1982). Agora, volta a fazê-lo numa Europa que se interroga sobre as suas “raízes” e num mundo pós-11 de Setembro de 2001.

* * *
Mas não é minha intenção fazer aqui uma recensão do livro. Mas, porque desde algum tempo também me interesso pelo tema do Outro, queria apenas partilhar neste fórum algumas notas de leitura que me parecem interessantes.
Desde logo, o belíssimo texto que o autor escolheu para colocar no início do primeiro capítulo (“Barbárie e civilização”): “Il n’y a jamais eu une valeur de civilisation qui ne fût pas une notion de féminité, de douceur, de compassion, de non-violence, de faiblesse respectée... Le premier rapport entre l’enfant et la civilisation, c’est son rapport avec sa mère” (Romain Gary, La nuit sera calme). Independentemente dos conteúdos histórico-culturais que os conceitos de “bárbaro” e “civilizado” adquiriram, tudo se resume segundo Todorov a uma única categoria fundamental: reconhecer ou não o Outro como ser humano – “os bárbaros são aqueles que não reconhecem que os outros são seres humanos como eles” (p. 36). Ora, isso começa logo pela questão linguística (donde vem precisamente o termo “bárbaro”): “a ignorância da língua de alguém impede-me de o perceber como plenamente humano” (p. 39). Vem depois a questão moral, ou o suposto comportamento “selvagem” – inumano – do “bárbaro”. “Rousseau viu bem o problema: ‘O bem e o mal brotam da mesma fonte’, escrevia ele, e esta fonte não é outra coisa que a nossa necessidade irredutível de viver com os outros, a nossa capacidade de nos identificar a eles, o nosso sentimento de humanidade partilhada” (pp. 43-44). A mesma pessoa pode ser sujeito de atos/atitudes contrárias. Pelo que, “são os atos ou as atitudes que são bárbaras ou civilizadas, e não os indivíduos ou os povos” (p. 45).
“Pelo facto de todo o ser humano participar simultaneamente de várias culturas, a possibilidade da sua [culturas] coexistência pacífica não deveria ser questionada” (p. 149). É por isso que a teoria do “choque de civilizações” é problemática! É claro que o que está por detrás desta teoria é uma suposta “guerra religiosa” entre Islão e Cristianismo, o que seria, absolutamente, uma novidade histórica, pois “as guerras tiveram sempre motivações essencialmente políticas, económicas, territoriais e demográficas” (p. 155), e não ideológicas ou religiosas. Se a religião é invocada, é-o de maneira “deliberadamente instrumentalizada” (p. 160). Samuel Huntington sabe isso: “Odiar faz parte da humanidade do homem. Para nos definir e nos mobilizar, temos necessidade de inimigos” (citado na p. 169-179). Porém, “quando a inumanidade de um é suprimida ao preço da desumanização do outro, o desafio é irrisório. Se para vencer o inimigo se imitam os seus atos mais horrendos, é a barbárie que vence. O maniqueísmo não pode combater o maniqueísmo. A estratégia que procura contrariar a violência do inimigo com uma violência semelhante está condenada ao fracasso” (pp. 188-189).
Nos últimos anos houve um grande debate na União Europeia em torno à sua “identidade cultural” (ou civilizacional). Ao espírito de muitos vem a definição de Paul Valéry, no termo da Primeira Guerra Mundial, para quem os povos europeus estão marcados por três grandes influências: Roma, com a sua organização política e social, o direito e as instituições, ou ainda o estatuto do cidadão; Jerusalém, pela herança moral judeo-cristã, o exame de consciência e a justiça universal; Atenas, com o seu gosto pelo conhecimento, a argumentação racional e o ideal de harmonia (cf. pp. 282-283). Todavia, um outro pensador suíço, Denis de Rougemont, foi mais longe, invocando outras influências: as doutrinas do bem e do mal da tradição persa, a ideia de amor dos poetas árabes ou a tradição mística dos povos celtas (cf. p. 284). E, evidentemente, a partir da Idade Moderna, não podemos ignorar a elaboração de memórias coletivas nacionais, que pode alargar ainda mais o leque das influências da identidade europeia: não apenas Atenas, Roma e Jerusalém, mas ainda Londres, Paris, Amesterdão, Genebra, Berlim, Milão, etc. (cf. p. 285).
Por isso o autor defende uma unidade baseada na pluralidade: “a minha hipótese será a seguinte: a unidade da cultura europeia reside na sua maneira de gerir as diferentes identidades regionais, nacionais, religiosas, culturais que a constituem, concedendo-lhe um novo estatuto e tirando proveito desta mesma pluralidade” (p. 290), e adere de bom grado à teoria “cosmopolita” do alemão Ulrich Beck, baseada em três princípios: 1) um conjunto de pequenas entidades que obedecem a uma norma comum; 2) a concessão de um estatuto legal às diferenças entres ditas entidades; 3) e a atribuição de direitos iguais a todas a entidades (cf. p. 304). Segundo este último autor, “o milagre europeu consiste em poder transformar os inimigos em vizinhos” (cit. p. 306). Nesta linha, para Todorov, “o projeto de uma União Europeia é sobretudo uma tentativa para tornar o destino do mundo mais civilizado [e menos bárbaro]” (p. 322).
Em suma, este livro é um convite a vencer o medo do Outro, para construir com ele um mundo novo. Como diz o autor, “o medo é mau conselheiro e é preciso ter medo daqueles que vivem no medo” (p. 187).

Porfírio Pinto

publicado por Re-ligare às 17:05
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Sábado, 2 de Outubro de 2010

Reino Unido reconhece oficialmente o druidismo como religião

Retirado do Público:

            

O anúncio foi feito pela Comissão de Organizações de Beneficiência que passará a incluir esta prática espiritual originária nas sociedades celtas de toda a Europa na sua lista de cultos de “fé genuína” do país.

Entre outras coisas, este reconhecimento trás com ele importantes deduções fiscais à Druid Network (Rede de Druídas), que passa a ter o estatuto de organização de beneficiência. Isto porque a promoção do druidismo como religião passa a ser considerada uma actividade de interesse público.

A comissão sublinhou que o culto dos espíritos do mundo natural é uma actividade religiosa comparável ao cristianismo e o islão e recordou que o druidismo é uma das mais antigas práticas espirituais do Reino Unido.

Segundo números oficiais, citados ontem pelas agências, o druidismo no Reino Unido está no seu melhor momento dos últimos dois mil anos. Uma popularidade que se justifica pela diminuição de influência das religiões tradicionais e um crescente aumento das preocupações ambientais por parte dos britânicos.

Os seguidores deste culto pagão prestam homenagem ao espírito que vive na terra e às forças da natureza. Acreditam nos espíritos que habitam nas montanhas, rios e mares e os seus rituais centram-se essencialmente na mudança das estações, como representação divina da natureza.

publicado por Re-ligare às 16:39
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Cooperação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Carismática

Transcrevemos a mensagem que gentilmente nos foi enviada pelo Rev. Padre Marco Lopes:
 
A Igreja Católica Apostólica Carismática, membro da Comunhão Internacional da Igreja Episcopal Carismática (www.iccec.org), fundada em 1992 e sedeada em Nova Iorque, está presente em Portugal desde o ano 2000. Recentemente a comunidade de Santo Estêvão, que serve os seus membros na área de Lisboa, viu-se privada dum espaço onde pudesse realizar condignamente os seus cultos. Sendo a congregação pequena, esta não se mostrava capaz de manter um encargo elevado resultante de um arrendamento comercial. Assim, confrontado com esta realidade, o Padre Marco Lopes, Sacerdote da Igreja Católica Carismática, decidiu entrar em contacto com o Patriarcado de Lisboa e expor abertamente a necessidade da sua congregação. Talvez a Igreja de Roma pudesse mostrar-se tão generosa como antes o fora, permitindo à Igreja Carismática o uso de capelas na Alemanha e em França.
 
Foi desde o início notória a abertura manifestada pelo Rev. Padre Peter Stilwell no sentido de estender a mão do Patriarcado a uma comunidade cristã necessitada. Esta ajuda, a ser concedida, seria mais um exemplo da disponibilidade do Patriarcado para, em espírito ecuménico e fraternal, auxiliar cristãos “sem tecto”. Isso já tinha sido visto com algumas congregações ortodoxas que usam capelas romanas.
 
Volvidas algumas semanas, a resposta veio a ser positiva. Só faltava então descobrir o espaço…  O espaço estava já “reservado” por Deus na Paróquia de Nossa Senhora da Lapa, dirigida pelo Rev. Padre Miguel Carvalho. A sua simpatia, generosidade e genuíno espírito fraternal permitiram que desde Julho a Igreja Católica Carismática celebre todos os domingos Eucaristia na Capela de Nossa Senhora dos Milagres. Este belíssimo templo remonta a 1703 e ladeia o Convento das Irmãs Clarissas na Estrela. Conta-se que por lá terá passado a Beata Jacinta, uma das videntes de Fátima.
 
 

publicado por Re-ligare às 10:44
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

Em Londres, Bento XVI com líderes religiosos

           

Ao contrário do que aconteceu na recente visita a Portugal, em LOndres teve lugar um encontro entre o Papa e vários líderes religiosos.

          

Estas iniciativas são sempre de sublinhar. Tanto mais que nos podem dar indicadores muito preciosos de como as religiões encaram esta herança que o dever de se encontrarem em locais públicos.

 

Neste caso, dois tópicos interessa não esquecer:

 

1. Numa atitude de clara superioridade, Bento XVI recebeu os cumprimentos dos líderes religiosos, tomando a dianteira simbólica do acontecimento. Ao deixar-se filmar nessa atitude benevolente de quem recebe e de quem convida, assumindo-se quase como quem "convoca", Bento XVI, mais uma vez, deu à Igreja de Roma o lugar de primazia neste processo, criando uma desigualdade e, mais uma vez, remetendo o diálogo entre religiões para um simples folclore mediático, de boas fotografias, mas escasso conteúdo.

 

2. Por fim, no seu discurso, pediu o que, efectivamente é necessário para se abrir um claro e sem ressentimento diálogo: o Respeito. Neste ponto, Bento XVI ultrapassou o campo do "politicamente correcto", colocando o "dedo na ferida".

Seguindo o texto do Público: Bento XVI pediu o respeito pela "liberdade de seguir a própria consciência sem sofrer o ostracismo ou a perseguição, mesmo se alguém se converte de uma religião a outra". "Penso em particular nas situações existentes em certas partes do mundo, onde a cooperação e o diálogo entre as religiões exigem o respeito mútuo, a liberdade de praticar a sua própria religião e de tomar parte em actos de culto públicos", afirmou.
           

Talvez, finalmente, se esteja a entrar noutro campo do diálogo, o do Respeito que é necessário lançar sobre estas relações.

publicado por Re-ligare às 11:18
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Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

Em Ankawa, os cristãos caldeus são protegidos pelos muçulmanos

O padre Luis Kakos agradece "ao Governo do Curdistão e a Deus". Hamdulillah! "Aqui os muçulmanos protegem-nos e as pessoas vivem em segurança." As crianças cantam e batem palmas.

              

O segurança da Igreja de S. José, dos cristãos caldeus de Ankawa, é arménio e isso não faz diferença a ninguém, nem ao padre, Luis Kakos, nem ao catequista, Shwan, nem à freira Ibba, que também é catequista, muitos menos às 108 crianças que nesta manhã de domingo estão a cantar e a rezar.

Primeiro, a igreja parece quase vazia. Nas traseiras há a capela mortuária e vai começar um velório. Contorna-se o edifício, grande de um quarteirão, até ao portão principal. À entrada está Daniel, Kalashnikov ao lado, T-shirt quase justa, cruzes e Cristo tatuados nos braços e também nas costas. Diz que não está ninguém, só a catequista. Não é verdade, o padre também cá está. E as crianças.

Passado o portão, o padre vem ter ao jardim. Depois, ouvimos as vozes, e as vozes são irresistíveis. Mais de 100 crianças a cantar, em coro, mais afinado ou às vezes um pouco fora de tom. Estão espalhadas pelos bancos de madeira compridos, alinhadas, às vezes sentadas, quase sempre de pé. Em frente, de costas para o altar, está Shwan, que hoje é mais maestro do que catequista. Às vezes, começa uma música mais mexida. E as crianças começam todas as abanar-se e a rir. Quando é tempo de bater palmas, batem, enquanto cantam.

Há uns miúdos que agora têm de ir até lá à frente, ao altar. Vão de mãos dadas, voltam e tocam uns nos outros, seguem até ao fundo e voltam a sentar-se. Agora, há outros que devem imitá-los. Enganaram-se. Os que ficaram nos bancos olham para baixo e riem-se. São quase 11h00 da manhã e o ensaio está mesmo a terminar. Reza-se uma Ave Maria que termina num inshallah (se Deus quiser). As crianças sentam-se todas e começaram a agarrar nas suas coisas, as miúdas a porem as malas ao ombro. A catequista diz-lhe umas últimas palavras e depois as crianças saem todas da igreja, a rir e em fila.

A freira Ibba fica mais um pouco, a falar ao telemóvel. O catequista Shwan despede-se das últimas crianças. "Têm todas mais ou menos 11 anos. Estamos a prepará-las e elas estão a preparar-se a si próprias. Vai ser um dia muito especial para elas. Acontece, quando passam do quinto para o sexto ano e assinala o momento em que podem passar a receber o corpo de Cristo", explica Shwan. A cerimónia está marcada para sexta-feira. "É um dia grande, vêm os pais todos e amigos também. Eu estou a prepará-los para receberem Cristo na vida deles."

Ibba, que estudou três anos em Itália e fala italiano, sorri muito e diz-se "feliz pelas crianças". "Ensinamo-las a darem os primeiros passos na vida. A saber como mudar. Queremos que elas saibam como ajudar a mãe e como ajudar o pai. É fácil - se lhes ensinamos uma forma simples de serem úteis, eles ficam felizes e recebem-na", acrescenta Shwan.

Uma vila à parte

Estamos na Igreja de S. José dos cristãos caldeus de Ankawa, um bairro de Erbil, a capital do Curdistão iraquiano. Há quem chame bairro a Ankawa, há quem lhe chame vila. Na verdade, é uma espécie de subúrbio de Erbil, uma cidade que cresceu em círculos e tem estradas com nomes de metros, cada vez mais metros à medida que o centro fica para trás. Ankawa é quase arredores. Ainda em Erbil, mas é a Erbil dos cristãos, com sons, cheiros e cores só suas.

As crianças que se estão a preparar para receber o corpo de Cristo vestem roupas coloridas. As miúdas usam brincos e elásticos e ganchos e têm quase todas cabelos compridos. Os miúdos têm T-shirts dos Iron Man e calções e camisas. Imaginamos que vão a pé até às suas casas, sozinhos, porque Ankawa é segura. Erbil também, mas Ankawa ainda parece mais. Tranquila de dia. Animada à noite, com restaurantes em pátios e bares onde há televisões ligadas em canais desportivos e do balcão saem copos de gin e de whisky e pratos de amendoins.

Ankawa tem sete mil cristãos e muitas igrejas. A de S. José foi construída em 1980. Os caldeus têm outra igreja em Ankawa, mais velha. Há também a Igreja de S. João. E outras, S. Jorge, S. Elias, de cristãos caldeus e de cristãos assírios.

Os caldeus respondem a Roma e ao Papa. Luis Kakos é padre há 28 anos e o pai dele já nasceu em Ankawa.

"Depois dos problemas de segurança nas outras áreas, muitos cristãos vieram para aqui. Tantos, vieram de Mossul, vieram de Bagdad e de outros sítios. Há muitas crianças a vir aqui. Os cristãos também fugiram do Iraque, mas muitos vieram para aqui", diz o padre, no seu gabinete. Ankawa é uma vila curda, claro está, e o padre fala curdo. Mas há palavras que os árabes e os curdos, muçulmanos ou cristãos, partilham, muitas. Como inshallah (se Deus quiser) e hamdulillah (Graças a Deus).

Hamdulillah

O padre Luis Kakos diz: "Agradecemos a Deus, hamdulillah, foi uma grande misericórdia, especialmente para nós, cristãos, Ankawa é o ideal."

"Há um grande desenvolvimento no Curdistão, especialmente em Erbil. Nos últimos quatro, cinco anos, fizeram-se estradas, construíram-se centros comerciais. As pessoas vivem em segurança. Não é como Bagdad e Mossul, cidades que foram destruídas. Aqui, graças a Deus, as pessoas vivem bem, em segurança", descreve o padre. "Agradecemos ao Governo do Curdistão e a Deus."

Luis Kakos repete que em Ankawa "a vida é ideal" e explica que isso "é possível" por causa das boas relações: "Temos muito boas relações com o islão em Erbil. Noutras zonas, os terroristas e os extremistas ameaçam os padres e as igrejas. Mas aqui temos boas relações, há muito tempo. Nunca foi diferente. Aqui, os muçulmanos protegem-nos. Esta é a verdade." Hamdulillah.

O padre Kakos que já nasceu em Ankawa recebe quem quer que lhe apareça à porta da sua igreja. Mas acredita que a maioria das pessoas que ali chegou, em fuga de outras cidades do Iraque, "quer voltar à sua cidade original, assim que haja segurança e que isso seja possível". As pessoas que vieram para Ankawa vão agradecer viver em segurança, mas "vão sentir a falta das suas casas, da sua terra".

"Nós, os orientais, temos uma paixão pela nossa terra. No nosso coração, pensamos sempre na nossa terra. É algo sagrado", diz Kakos.

Um dia, talvez Daniel sinta a falta da sua casa em Bagdad. Mas ainda vai demorar.

Até há nove meses, Daniel vivia em Bagdad, em Zahwa, perto do bairro de Nova Bagdad. Os pais já morreram e Daniel, de 24 anos, vivia com as duas irmãs e com a mulher, Rita, de 22 anos, e um filho a caminho, uma gravidez já de Ankawa, com três meses ainda. Daniel ainda vive com Rita, só já não vive em Bagdad. Uma das irmãs casou-se e veio antes dele, com o marido; a outra ficou na capital. Daniel é o segurança da Igreja de S. José.

Vontade de emigrar

"A vida era muito difícil. Quando saíamos, pensávamos que podíamos nunca mais voltar. Podia haver uma explosão e era o fim. A vida era horrível", diz Daniel. Mesmo assim, foi ficando em Bagdad, na sua cidade, a trabalhar como segurança na sua igreja, a Igreja de S. Gregório, arménia.

Depois, vieram as ameaças. "Fui ameaçado duas vezes. Uma vez foi só uma coisa simples, vieram e falaram. Na segunda vez tinham armas. Saí da igreja para ir a casa almoçar e quando voltei, às 15h30, eles estavam lá. Começaram a falar comigo e depois percebi que tinham armas e encostaram as armas à minha barriga. Disseram palavras feias. Disseram: "Não fiques aqui." Perguntei porquê e eles disseram só: "Esta é a nossa decisão, nós é que decidimos." Não me disseram mais nada. Eu ainda lhes disse que nunca trabalhei para os americanos", conta Daniel.

Os homens que o ameaçaram eram "muito normais" e "nem taparam as caras". Mas tinham armas que encostaram à barriga de Daniel e então Daniel decidiu que já chegava da vida horrível, das explosões e de nunca saber se voltava a casa de cada vez que saía.

Agora, a vida também não é fácil. Daniel trabalha das cinco da manhã às nove da noite. Na igreja e depois numa fábrica de doces, a partir do meio-dia. Em Bagdad a casa era dele, aqui tem de pagar renda.

"Se eu tivesse dinheiro, ia-me embora já", diz. Daniel veio para Ankawa, mas preferia ter saído do Iraque: "A maioria dos cristãos que eu conheço fugiu. Foram para a Síria, para a Turquia, para a Alemanha, para os Estados Unidos. Pelo menos encontraram um sítio para assentarem, para recomeçarem", diz. "Eu para Bagdad não volto. Passei lá a minha infância. Custou-me vir-me embora. Mas não podia fazer nada, não decidi assim. Agora não, nunca mais."

               

Retirado do Público de hoje.

publicado por Re-ligare às 10:06
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Sábado, 24 de Julho de 2010

Que fazer com um sêlo?

Há poucos dias, fui a uma estação dos correios. A encomenda era simples, um envio para Londres.

Pedi e esperei. A funcionária começa a percorrer o livro de sêlos e, para meu espanto, para e olha para mim... "Estava a pensar colocar o sêlo com o Papa, mas eles lá em Londres não são Católicos..."

            

Fiquei espantado com a sensibilidade. Confirmei. Sim, eram Anglicanos.

            

Propôs alguns dos sêlos com elevadores. Foi uma encomenda mais "politicamente correcta".

                         

 

              

                 

publicado por Re-ligare às 01:41
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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

Austrália: Jesuítas vão inaugurar escola gratuita para crianças aborígenes

Os jesuítas vão inaugurar em 2011 uma escola primária gratuita para as crianças aborígenes, que ficará localizada nos arredores da cidade australiana de Sydney.

O estabelecimento de ensino, a ser instalado na igreja católica de St. Vincent, em Redfern, vai receber as crianças menos favorecidas, tendo em conta as necessidades das famílias e a cultura dos estudantes.

O reitor do Colégio St. Aloysius, Pe. Ross Jones, explicou que o Governo do  Estado de New South Wales financiou as primeiras inscrições na escola, enquanto que o Conselho Municipal de Sydney aprovou o pedido de restauração do presbitério da igreja.

‘Jarjum’, que na linguagem aborígene Bundjalung significa “crianças”, é o nome da escola, que será financiada pelo Colégio St. Aloysius, a cargo da Província dos Jesuítas.

“A formação das crianças nesta escola será intensiva e holística”, disse o sacerdote, acrescentando que a instituição vai cuidar das crianças mais necessitadas e excluídas.

O projecto prevê oferecer o pequeno-almoço, almoço e actividades vespertinas aos estudantes, além de um cuidado pastoral individual e exames médicos regulares, em associação com o Serviço de Saúde aborígene.

 

Fonte: Agencia Ecclesia Online

sofia s.

publicado por Re-ligare às 18:01
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Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Padre católico indonésio recebe prémio islâmico pela paz

Padre católico indonésio recebe prémio islâmico pela paz
Galardão é significativo num país onde não são raras as tensões entre cristãos e muçulmanos.


O prémio Ma’arif, que distingue todos os anos pessoas que se destacaram na sociedade indonésia, foi atribuído ao padre Vincentius Kirjito. O sacerdote católico partilha o prémio deste ano com Habib  Ali al-Habsy, um muçulmano responsável por um esquema de micro-crédito baseado na lei islâmica.

Vincentius Kirjito foi distinguido pelo seu trabalho em benefício do diálogo inter-religioso, da paz e da conservação ambiental. Em particular, o padre tem-se destacado no esforço pela preservação do vulcão Merapi, um dos principais focos de turismo da região de Java Central.

O prémio Ma’arif tem o nome de Ahmad Syafii Ma’arif, antigo dirigente da Muhammmadiyah, a segunda maior organização islâmica do país. A Indonésia é o maior país muçulmano do mundo, em termos populacionais, mas conta com significativas minorias cristãs e católicas, espalhadas pelo arquipélago.

Existem alguns focos de tensão entre as duas comunidades em certos pontos, com esporádicos casos de violência e até mortes, o que torna particularmente significativa a atribuição deste prémio a um sacerdote católico.
Fonte: Radio Renascença Online.
publicado por Re-ligare às 18:01
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Domingo, 4 de Abril de 2010

Primeiro lugar multi-religioso em hospitais estará pronto até final de 2011

O projecto de lugar multi-religioso que será construído no Hospital de São João, no Porto, deverá estar pronto até final de 2011 e será modelo para espaços semelhantes a construir nos novos hospitais. O projecto, a que o PÚBLICO teve acesso, inclui sete pequenos lugares de oração para diferentes credos como cristianismo (protestante e ortodoxo, uma vez que os católicos já têm uma capela), judaísmo, islão, budismo ou hinduísmo.

No caso dos muçulmanos, o seu pequeno oratório (como se fosse um mehrad das mesquitas) estará mesmo orientado para Meca, como manda a regra do islão. "Cada um dos lugares tem sempre um símbolo específico de determinada religião ou uma orientação, como o caso do islão", diz o arquitecto Abrunhosa de Brito, do gabinete responsável pelo projecto.

Na memória descritiva aponta-se mesmo esta "ambiguidade" como a marca distintiva do lugar multi-religioso: "Por um lado, formular a resposta a uma necessidade - lugar de oração - por outro, agregar a diversidade de povos, culturas e religiões".

O espaço define-se como um rectângulo, nas laterais do qual se dispõem os volumes, com distintas formas, correspondentes às diversas religiões. Haverá símbolos diferentes para cada uma das religiões, mas poderá haver casos em que o mesmo símbolo sirva diferentes credos. Por exemplo, uma flor de lótus pode ser o símbolo comum de budistas, hindus e bahá"ís.

No caso das minorias cristãs, os ortodoxos terão um oratório próprio, tendo em conta o peso e a dimensão da imigração de Leste em Portugal. Na maior parte dos casos, esses imigrantes estão ligados à Igreja Ortodoxa ou a ritos católicos orientais.

Como elementos caracterizadores, estarão presentes a água, a terra e a luz. A água é utilizada no painel frontal à assembleia, a terra estará presente através de plantas endémicas de cada região e através de um pequeno jardim adjacente que os autores sugerem que seja construído. A luz entrará através de frestas e clarabóias. "São três elementos comuns à humanidade e às religiões", diz Abrunhosa de Brito.

A ideia deste lugar surgiu antes da lei que regulamenta a assistência espiritual nos hospitais. "O hospital deve constituir-se como um lugar e fazer tudo para respeitar a singularidade de cada pessoa", diz o presidente do Conselho de Administração do Hospital de São João (HSJ), António Ferreira.

"O ser humano doente é de uma complexidade multifacetada - humana, cívica, cultural, espiritual, religiosa. Por isso, desde 2005, desenvolvemos um conceito de serviço religioso que garantisse a assistência espiritual de todos os que quisessem e a assistência religiosa dos crentes", acrescenta o responsável do São João.

Este espaço, que ficará situado na ala norte do HSJ, deverá estar construído até final de 2011, juntamente com outros dois serviços clínicos e perto da capela católica. No caso dos novos hospitais, o secretário de Estado da Saúde, Óscar Gaspar, assumiu o compromisso de "incorporar um espaço com este perfil" nos equipamentos a construir, bem como nos que venham a ser reformulados em breve.

Citado pela Ecclesia, o secretário de Estado, que esteve presente na reunião em que o projecto foi apresentado, dia 23 de Março, afirmou que o projecto é "inspirador" e "satisfaz os objectivos" do decreto-lei regulamentador da assistência espiritual hospitalar. "Este exemplo convence", acrescentou, a propósito da alternativa entre um espaço neutro ou um lugar multi-religioso que "pode ser comum e respeitador das singularidades".

O coordenador da capelania católica, padre José Nuno, vê com bons olhos a iniciativa da administração do HSJ: "É um lugar de muitos lugares, um espaço ao qual as pessoas imprimem carácter e que, por isso, se torna num lugar", afirma.

"É a concretização de um conceito que vai ao encontro da preocupação de proporcionar a cada tradição que se sinta em casa", acrescenta José Nuno, que destaca também a "importância pedagógica" da iniciativa, no sentido de construir uma sociedade inclusiva.

Uma das religiões que irão beneficiar deste novo lugar multi-religioso é o islão. "Foi uma surpresa agradável" ver o projecto, conta Abdool Rehman Mangá, presidente da Comunidade Islâmica do Porto. Abdool Mangá destaca a capacidade deste novo lugar para "ajudar a reflectir sobre a dor e a doença" num "espaço acolhedor" como este.

                

Retirado do Público, 4 de Abril de 2010.

publicado por Re-ligare às 11:16
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Segunda-feira, 8 de Março de 2010

Capela partilhada por várias religiões para dar apoio aos doentes

Grupo de trabalho inter-religioso voltará a reunir-se com o Ministério da Saúde para apresentar projecto de lugar de oração partilhado. Líderes espirituais elogiam diálogo.

No Hospital de São João, no Porto, no dia após o internamento, os doentes são visitados por voluntários que lhes propõem assistência religiosa. Seja qual for o credo. Católico, islâmico, hindu, judaico, budista, baha'i ou de outras confissões cristãs. O espaço de culto ainda é a capela católica, mas em breve haverá um lugar multirreligioso com referências a várias tradições religiosas, que poderá ser utilizado por todos.

O projecto deste novo espaço será apresentado dentro de duas semanas ao secretário de Estado da Saúde, pelo grupo inter-religioso para a assistência espiritual e religiosa no Serviço Nacional de Saúde. Um grupo de trabalho inédito, que senta pela primeira vez à mesa várias religiões, e é constituído pelo coordenador católico das capelanias hospitalares, o padre José Nuno Silva, o xeque Munir, da comunidade islâmica, e o pastor Jorge Humberto, da Aliança Evangélica.

"O lugar de culto não será um espaço neutro, pois o objectivo não é neutralizar mas permitir que o máximo de pessoas se sintam bem nele", explicou ao DN José Nuno Silva, que é também capelão do São João. "Este projecto pode ser inspirador para outros lugares de culto a criar."

A abertura das capelanias dos hospitais a outras confissões decorre da Lei da Assistência Religiosa, aprovada há três meses, que começa a implantar-se no terreno. A criação do grupo de trabalho foi o primeiro passo para a definição de regras e troca de experiências entre religiões e Governo.

No São João, há muitos anos que padres e ministros de outras religiões se cruzam nos corredores do hospital. "Houve sempre abertura do hospital. E eu, ao ver o que vejo diariamente como capelão, tenho de ser o primeiro a exigir iguais possibilidades para todos os doentes", afirma o capelão José Nuno Silva, que muitas vezes chamou os ministros de outros cultos para virem assistir os seus doentes.

Metodistas, baptistas, anglicanos, ortodoxos, mas também budistas e muçulmanos já vieram ao São João acompanhar espiritualmente os seus crentes, num apoio personalizado que pretende ajudar a suportar o sofrimento.

"É fundamental o apoio religioso. Os doentes querem ser visitados e acompanhados", diz o bispo metodista Siferedo Teixeira. Para o representante da Comissão das Confissões Cristãs (Copic), "a saúde é um assunto que toca a realidade de todos e pode ajudar as pessoas de outras religiões e confissões a conhecerem-se e interessarem-se pelos outros".

José Ruah, da Comunidade Israelita de Lisboa, diz que nunca foi negado o acesso nem dificultada a assistência aos doentes da sua comunidade nos hospitais. E que tal tem sido possível com a "anuência e compreensão dos estabelecimentos de saúde". Sobre o caminho de diálogo percorrido pelas várias religiões, José Ruah, diz que tem havido um incremento. "Isso permite que nos conheçamos melhor e, consequentemente, que as diferenças sejam mais bem aceites."

O capelão católico vai mais longe: "O diálogo inter-religioso faz-se na prática. E o que se está a fazer na saúde é precursor. É um caminho de interculturalidade."

               

Retirado do DN, 7 de Março de 2010.

 

publicado por Re-ligare às 00:26
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